sexta-feira, 14 de novembro de 2008

ENTERNECER



ENTERNECER


Enternecer!
Esse é o momento,
O verbo presente,
A condição,
Que eu espero seja permanente.
A rudeza,
O sarcasmo,
O medo,
A coragem em demasia,
Até mesmo uma certa covardia
Somando-se ao descaso,
À solidão, à vulgaridade,
À falta de emoção,
Foram abatidos pelo enternecer.
Hoje olho no espelho,
Digo a mim mesma
Quase em tom de conselho:
“Vida que segue, valeu?”
O olhar que feria,
Hoje acarinha;
A boca que somente profanava,
Hoje apenas sorri;
A voz enternecida,
Ora alterada,
Agora conversa, sussurra;
Ou grita em tom de liberdade.
Todo por conta desse enternecer.
Quem foi agressivo,
Hoje é apenas firme;
Quem morria aos poucos,
Hoje está mais vivo;
Quem espalhava incertezas,
Hoje sabe muito mais o que quer.
Mas não há transformação sem dor;
E não há renascimento sem amor.
Esse é o segredo:
Enternecer.
Enternecer para fortalecer.
Somente os fortes sabem cair,
Chorar
E levantar,
Sorrir,
E enternecer.



Cacau Rodrigues




A MINHA FÉ

A MINHA FÉ


A minha fé
Professa nas esquinas,
Na noite,
Nos copos,
Na fumaça,
Nas meninas;
Mas o importante é ter fé.
A minha fé
É sem cruz e sem terço,
Mas não me livra um terço
Da cruz que eu carrego,
E eu sei por quê;
Acho até que mereço.
A minha fé
Não protege,
É um pouco herege,
Um pouco até de mentira;
Às vezes satura,
E é do jeito que é;
Mas o importante é ter fé.
A minha fé
Não frequ
enta templos,
Não ajoelha em altares,
Não se confessa aos padres,
Não se compromete
Com horários, dias, lugares,
E não se prende ao exercício da oração.
Mas tem até santo de devoção!
A minha fé
É a cara da contradição.
A minha fé é mal vista;
Compra fiado,
Recebe à vista;
A minha fé é barganha,
Escambo,
Controvérsia;
Uma espécie de contravenção.
Mas o importante é ter fé!
Mesmo a fé que bebe um pouco de vinho,
Fuma o cachimbo da paz,
Cheira a Rosa de Hiroxima,
Deita a qualquer preço;
Não é fé de menos,
E só parece que fede mais!
A minha fé é sagrada,
De porta de boteco,
Beira de estrada;
É de comer a empregada,
Meter os dedos na calçada,
Sentar num colo na escada;
Mas eu rezo e durmo em paz!
Exatamente como aquele babaca,
Que faz igualzinho,
Mas não fala que faz.
O importante é ter fé, meus filhos!
E estamos todos perdoados; nada mais!
Ah, sim!
Amém!


Cacau Rodrigues